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A Esquerda É Totó

Eduardo Proença

O problema são os muçulmanos. Logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país.

A tese exposta acima foi apresentada originalmente pelo excêntrico candidato a presidente Donald Trump, em Dezembro de 2015. Como sabemos, Trump acabou por conquistar a presidência dos Estados Unidos da América nas eleições do ano seguinte, ao alcançar quase 63 milhões de votos, ganhar trinta estados, e garantir uma maioria de delegados no colégio eleitoral que designa o chefe de estado da maior economia do mundo.

A teoria de que os males da sociedade derivam de uma minoria religiosa, e que portanto se resolvem banindo do país os membros desta minoria, é ridícula, imbecil, implicitamente xenófoba e não tem qualquer conexão com a realidade. (Podemos desenvolver um debate sério sobre os vastos problemas que as religiões trazem ao mundo – incluindo o cristianismo, o judaísmo, o hinduísmo, o budismo, etc… e sim, o islão – mas não foram “os muçulmanos” que fizeram com que os salários dos trabalhadores americanos estagnassem desde os anos 70, nem foram “os muçulmanos” que deixaram 27 milhões de americanos sem seguro de saúde. A causa das alterações climáticas que põem em perigo a nossa sobrevivência enquanto espécie também não foi o islão. Portanto, a teoria de Trump é simplesmente estúpida.)

Como reacção, podemos passar horas, dias, meses, anos, a «condenar o racismo», podemos escrever mil artigos a «defender a tolerância», podemos ficar escandalizados e zangados, fazer grandes proclamações de valores ou denunciar quem quisermos, incluindo Trump e os seus apoiantes. Mas Trump ganhou, levado a braços por milhões de eleitores. Denunciar a sua xenofobia não vai mudar este facto.

Queremos derrotar a extrema-direita? Para o fazer, seja em que lugar do mundo fôr; nos Estados Unidos ou no Brasil ou na Europa, há que compreender o que a tornou viável nos últimos anos, e porque se afirmou como alternativa ao status quo.

Por outras palavras, precisamos de analisar o discurso da extrema-direita, e perceber de que maneira é que a sua narrativa sobre o mundo actual faz sentido para tantas pessoas em todo o planeta. Estudar a doença para encontrar a cura.

O timing não é a questão em cima da mesa. A ascensão de ideologias anti-sistema, nas quais se incluem os movimentos securitários e xenófobos, coincide invariavelmente com o rescaldo de crises económicas graves e níveis de desigualdade incomportáveis. É assim no pós-2008 como foi no pós-1929. A dúvida é, antes, porque é que a esquerda, por definição o campo político da mudança, não se está a conseguir afirmar como principal alternativa ao status quo. Fê-lo várias vezes no passado, mas, nos dias que correm, parece está a perder a corrida para a extrema-direita, um pouco por todo o lado.

E agora? Hipótese A: convertemo-nos em cínicos ou pessimistas, e entramos em desespero. No fim de contas, os fascistas não têm o monopólio dos bodes expiatórios… podemos culpar a “natureza humana”, a tecnologia das redes sociais, ou outro qualquer factor imutável, ignorando as circunstâncias históricas e a nossa própria responsabilidade. Hipótese B: fazemos um processo de auto-crítica, e tiramos a limpo porque é que a nossa narrativa sobre os problemas do mundo está a colar menos com as pessoas do que aquela de Trump e companhia.

Proponho que ensaiemos a hipótese B. Não porque eu tenha uma resposta definitiva e imbatível (ninguém tem), mas porque me parece que há algo que nos anda a escapar. Um problema de lógica. Para ilustrar a minha perspectiva, gostaria de recuperar a tese de Donald Trump que serviu de ponto de partida para este texto: o problema são os muçulmanos; logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país. Esta teoria específica é só um exemplo. Poderíamos substituí-la por outra semelhante, como: o problema são os mexicanos; logo, devíamos construir um muro para impedir que entrem no nosso país. Ou, mais genericamente: o problema é “o outro”; logo, devíamos proibi-lo de integrar a nossa sociedade. O processo lógico é idêntico. Mas tomemos o exemplo dos muçulmanos.

A teoria tem duas partes. Na primeira, identifica-se a alegada causa do problema: as pessoas de uma determinada religião. Na segunda, aponta-se a solução para o problema: manter essas pessoas fora da nossa sociedade. Como já vimos, a primeira parte da teoria é completamente descolada da realidade. Qual é a relação que o islão tem com a desregulação da banca? Ou com a automação? Ou com a transformação das nossas democracias em oligarquias dos grandes interesses económicos? A proposição é lunática.

Mas, e a segunda parte da teoria, aquela em que se identifica uma solução? A segunda parte deriva da primeira, e é portanto igualmente absurda. No entanto, ela tem um mérito: é coerente com a primeira parte. Ou seja, caso o problema dos Estados Unidos fosse, realmente, os muçulmanos, então, faria sentido bani-los de entrar no país. Em suma, a tese de Trump não cola com a realidade, mas é internamente coerente.

Agora, vamos contrapor-lhe outra teoria. A esquerda tem uma ideia diferente sobre a crise social que o mundo atravessa: em vez de culpar minorias, aponta como causa o sistema económico que temos. Quer chamemos a este sistema “capitalismo”, quer lhe chamemos “neo-liberalismo” (para o diferenciar de outros modelos capitalistas, presumivelmente benignos…?), ele tem demonstrado uma série de características tóxicas, que bem conhecemos: enorme desigualdade de rendimentos e de poder; instabilidade económica e financeira; ataque aos serviços públicos; destruição do planeta em que vivemos; corrupção do sistema político…

Tudo muito bonito. Ou antes, totalmente rigoroso. Mas, partindo daí, qual é a solução que este campo político apresenta?

Ora, vamos extrapolar. A solução de Trump para o (falso) problema dos muçulmanos é banir os muçulmanos. Se o problema, segundo a esquerda, é a injustiça económica, poderia supor-se que os seus líderes propusessem… banir a injustiça económica?

Errado. A solução normalmente apresentada pelos protagonistas de esquerda é um pouco mais “sofisticada”. Aparentemente, atacar o problema directamente revelaria falta de nuance. Então, em vez de querer acabar com a desigualdade económica profundamente injusta, a esquerda quer… amenizá-la. Reduzi-la. E não através de medidas directas e imediatas, mas sim de processos indiretos, parciais, demorados.

Os políticos à esquerda nunca se propõem derrotar a desigualdade, mas sim “combatê-la”, que é como quem diz: diminuí-la, sem nunca clamar vitória total. Para isso, querem expandir o estado social, tornar os impostos mais progressivos, criar programas específicos de combate à pobreza, melhorar a legislação laboral, aumentar o acesso à educação. A intenção é meritória, mas falta uma coisa a toda a sua estratégia: pura e simplesmente, definir o que é “ganhar”.

Não sou grande fã de metáforas, mas, por uma vez, peço sejam indulgentes comigo. Imaginem que a vossa casa está a arder. Alguém chama os bombeiros. Quando estes finalmente aparecem, o chefe chega-se à frente e diz-vos: “Caros senhores, este incêndio é terrível. Vamos reduzi-lo.”

Depois prossegue: “Estivemos a ver, e achamos que diminuindo a entrada de oxigénio na cozinha podemos diminuir as labaredas para metade nessa divisão da casa. Através de diversas estratégias, também podemos amenizar o fogo da sala de estar, e, no seu devido tempo, contê-lo para níveis aceitáveis na marquise”.

Perante o discurso do bombeiro, a reação normal e saudável de um ser humano seria pensar: «Este homem está louco?? Ele não vai apagar o fogo? Onde está a água ou o extintor?? Para que servem afinal os bombeiros!?». Eis, senhoras e senhores, a reação lógica ao projecto político da esquerda actual.

A comparação pode parecer abusiva e absurda, mas olhemos com atenção.

Para o problema da pobreza, a esquerda não propõe erradicá-la com um rendimento básico incondicional, mas sim diminuí-la através do investimento em serviços públicos, de subsídios, de aumentos das pensões, do aumento do salário mínimo…

Para o problema da exploração, a esquerda não propõe proibi-la, abolindo o contrato de trabalho (definido, noutros tempos, como “escravidão assalariada”) e democratizando o local de trabalho, mas sim ameniza-la através do reforço da contratação colectiva, do aumento dos direitos laborais, da representação dos trabalhadores na direção das empresas, do aumento dos ordenados…

Para o problema da concentração desproporcional de riqueza e poder político nas mãos de uma elite minoritária, a esquerda não propõe impedi-la criando um rendimento máximo individual, mas sim temperá-la, com impostos progressivos, medidas redistributivas, financiamento público das eleições, maior transparência na política… A esquerda aceita que haja oligarcas milionários… simplesmente quer que eles paguem «a sua quota parte».

Para o problema da instabilidade económica e financeira, a esquerda nem sequer propõe uma mudança sistémica que previna o aparecimento de crises ou o florescimento de dívidas insustentáveis. Em vez disso, em Portugal, por exemplo, todo o discurso político alternativo foi, durante vários anos, o de rebobinar a cassete da História: “recuperar” direitos, “reverter” a austeridade, anular a Troika, voltar a níveis sociais anteriores à crise. Mas… o pré-Troika, e o pré-crise, não antecederam por definição, respectivamente, a Troika e a crise? Não havia algo de fundamentalmente errado no período anterior a 2008 que, precisamente, conduziu ao crash da bolsa? Se o nosso grande objectivo político era clicar no botão “undo” e voltar ao início dos anos 2000, isso não abriu portas a que pudéssemos ser descritos como parte do sistema? Não deveria haver algo de novo, de diferente, na nossa proposta política? Uma solução para o problema de fundo? Onde está o extintor?

Apontar um problema, e depois querer tratá-lo com meias medidas, indirecta e superficialmente, é ilógico. O contraponto da esquerda à tese «o problema são os muçulmanos; logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país» tem sido, recordemos: o problema é a injustiça económica; logo, devíamos moderá-la.

A narrativa de Trump, como vimos, era internamente coerente. Problema: muçulmanos – solução: banir os muçulmanos. Simplesmente, não tinha qualquer conexão com a realidade.

A narrativa alternativa, por sua vez, está assente na realidade, mas não tem coerência interna nenhuma. Se a casa está a arder, é absurdo não querer apagar o fogo. E é, de facto, absurdo, que não ataquemos a injustiça económica de uma forma radical, directa e assertiva.


A extrema-direita tem uma sabedoria enorme neste tipo de coisas. Facilmente compreende as consequências políticas de determinados pontos de partida. Acabei recentemente de ler o livro This Changes Everything, da jornalista canadiana progressista Naomi Klein. A autora argumenta, brilhantemente, que os conservadores americanos, enquanto negacionistas das alterações climáticas, foram os únicos que perceberam uma coisa que o resto de nós se recusa a aceitar: o capitalismo é incompatível com o clima. E que, nisso, têm toda a razão. Por isso mesmo, têm de voltar as costas à ciência e rejeitar os factos – mas os verdadeiros negacionistas somos nós, que aceitamos os factos e, no entanto, recusamos as suas consequências.

É assim na nossa relação disfuncional com o planeta, como é relativamente a este sistema económico perverso. Quando assumimos a realidade de um problema, temos de assumir, como implicação, a necessidade de lhe pôr fim. Não fazê-lo é ser, muito claramente, inconsciente, inconsequente e incoerente. E a incoerência não convence as pessoas.

Para ganhar, a esquerda tem de deixar de ser totó. E, por uma vez, gostava finalmente de ganhar.

admin

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