Que retiramos desta lição, que futuro nos darão?

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Ao fim de mais de 100 anos ninguém estava preparado para uma pandemia. Até ver, a letalidade não ameaça a sobrevivência da espécie, longe disso. Ao dia de hoje, algures entre 4 e 5 meses do paciente zero, o número total de mortos pouco passa dos 200 mil.

Podemos dizer que 200 000 é muita gente, mas numa escala 7 781 000 000 de habitantes no planeta, não ameaça a nossa existência. Como referência, para o dia de hoje nasceram 380 mil novos cidadãos do mundo face a 159 mil mortos o que quer dizer que nascem mais do dobro dos que morrem, mesmo a meio de uma pandemia.

Descobrimos que nenhum país do mundo tem equipamento médico suficiente para atender a sua população, nem enfermeiros, nem médicos, nem hospitais, nem medidas de contingência, nem economia que resista um mês sem operar.

Se o SNS e os SNS’s do mundo estivessem preparados, não teríamos um Estado de Emergência, apenas condicionaríamos a liberdade de movimentos aos que pelas razões conhecidas são mais frágeis a este vírus enquanto os restantes, passariam pelo vírus como com qualquer outro vírus, daqueles que vamos ao médico e ele nos responde “é uma virose que anda para ai…”.

Descobrimos que há políticos e políticos, uns que não disfarçam a sua incompetência, outros que não disfarçam a sua ideologia, outros que não disfarçam que servem os cifrões e as pessoas são meros instrumentos e outros que se destacam positivamente a meio da adversidade mesmo quando menos se esperava.

Mas há outras coisas que tenho descoberto e até gostaria de ter acesso a mais dados para perceber a cadeia de riqueza.

Quando a pandemia chegou a Portugal e se começou a perceber que não era mito urbano, foi anunciado que os testes custariam entre 100 e 200€.

Não passou muito tempo para que as noticias nos informavam que por terras lusas se procuravam novos reagentes para que o teste tivesse um custo de 30€ e noticia mais recente indica-nos precisamente isso.

Recorro agora ao poligrafo porque me poupa uma quantidade imensa de números, mas resumindo, quando começou a pandemia e se começaram a contas espingardas que para o efeito serão ventiladores, o preço avançado foi entre os 10 mil e os 20 mil euros por unidade. Nesta mesma verificação de veracidade pelo poligrafo é dito categoricamente que é mentira que um ventilador custe 3500€ e eu acredito que não exista nada à venda por esse preço, no entanto, a Marinha Portuguesa tem um protótipo com o custo de 1500 euros. Assumo que seja preço de custo sem margens de lucro necessárias para manter uma empresa privada em funcionamento, mas mesmo que fosse de 100%, custaria 3000 euros.

Isto são apenas dois exemplos apanhados pelo meio de uma pandemia que levantam duas questões:

Em ambos os exemplos apresentados, as soluções foram nacionais e criadas em menos de um trimestre.

Pergunta: porque compramos tanto produto internacional se afinal podemos produzir por cá?

Em ambos os casos, os valores propostos são francamente inferiores aos praticados em mercados a que recorremos porque alegadamente são mais baratos por força de uma mão-de-obra exploratória.

Pergunta: Porque andamos a pagar aos chineses se afinal, produzir por cá, é mais barato, mesmo pagando salários mais elevados, mesmo com impostos do mais elitista que há pelo mundo?

Como diria o Prof. Dimas de Almeida, uma crise é uma oportunidade e esta é o momento histórico mais revelador das últimas décadas.

É oportunidade de a União Europeia demonstrar se é uma união ou um grupo de interesses económicos e individuais em que o todo não é igual à soma das partes.

É oportunidade de compreender que o tecido social, nomeadamente educação e saúde, afinal estão muito aquém do necessário e que uma solução privada NUNCA dará resposta adequada à rés pública porque compromete fortemente a sua natureza de gerar lucro.

É oportunidade de compreender que dependemos em quase tudo de terceiros e se essa lição ficar aprendida, a primeira coisa a fazer é precisamente engrossar o tecido industrial, apostado numa indústria de futuro com foco tanto no mercado interno como nas exportações.

Apesar da baixa mortalidade, facto é que o mundo foi colocado em standby ainda por tempo indeterminado. Não sabemos quando passará, se teremos nova vaga, se os que contraíram o vírus são imunes para sempre ou apenas para uma temporada.

Sabemos que a humanidade não sentia um safanão desde o fim da 2ª Guerra Mundial e talvez seja um toque de despertador para mudar comportamentos individuais e colectivos.

Veremos o que aprende quem está no poder, quem escolhe quem está no poder, e o que aprendemos nós como indivíduos.

A polémica do 25 de Abril – mais um fait-divers em tempos de crise?

Neste episódio, discutimos a forma como os orgãos de comunicação social conduzem o debate público nacional: as suas prioridades, os protagonistas que valorizam, a forma como enquadram os assuntos relevantes ao país, e a sua relação com o poder económico. Como conseguir uma informação mais sóbria e plural?

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London calling: dos lares à cultura.

Conversa com a agente cultural Ana Baião a trabalhar numa residência sénior de Londres.

Ana Filipa Simões Baião, está em Inglaterra há 10 anos e neste trabalho há 3. Cá tirou a licenciatura em arqueologia e história, na FLUL, e fez o mestrado de Museum Cultures no Birkbeck College University of London. Na residência sénior funciona como agente cultural. Organiza eventos com os utentes, como idas a óperas, teatros, e faz uma série de actividades culturais nas áreas comuns da residência.

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MEDIDAS PROPOSTAS PELO MAPA

O MAPA apresentou, no inicio do mês de março, uma carta aberta,que foi enviada aos nossos governantes com várias medidas de proteção para os pequenos e médios empresários, e trabalhadores a recibos verdes. Mais de 600 cidadãos assinaram a nossa carta. Fazemos agora o balanço das medidas que o Mapa propôs, comparativamente às medidas que o governo decretou.

O MAPA propôs:

1 – Constituição imediata de um fundo de emergência de apoio às pequenas e médias empresas e profissionais liberais.

O Governo lançou o Fundo Capitalizar 2018 – COVID 19. A constituição do Capitalizar 2018 – COVID 19 contempla uma linha de crédito com um fundo de 200 milhões que poderá chegar, eventualmente, aos 3 mil milhões de euros. Esta linha de crédito não resolve os problemas das empresas, porque as obriga ao endividamento numa altura em que, por um lado, ainda estão a recuperar financeiramente da crise de 2008 e, por outro, estão a combater um problema que afeta todos os cidadãos mas do qual as empresas não são parte ativa. Acrescentamos que os spreads de 1,98 a 3,35 por cento são muito altos, mesmo se aplicados à Euribor a 3, 6 ou 12 meses. A euribor tem registado juros muito baixo ou negativos, mas esta linha de crédito, com a duração de 4 anos, não contempla taxa fixa, ou seja, numa perspetiva de subida, os empresários vão pagar juros elevados por uma linha de crédito que os pretende capitalizar. Nenhum empresário se endividará para pagar salários ou contribuições sociais quando não tem clientes ou rendimentos.

O Mapa reforça: Em tempos excecionais, medidas excecionais. O MAPA propõe que seja o Estado a gerir este fundo, disponibilizando o dinheiro diretamente às empresas, e não através da banca. Os valores devem ser investidos a fundo perdido, durante 6 meses, podendo prolongar-se o empréstimo até 3 anos com taxas de juro baixas. As empresas com processos de regularização de dívidas com o Estado, e que estejam a cumprir, não devem ser deixadas de fora desse programa. O mapa reforça também o ponto 5 desta carta aberta.

2- Pagamento da quarentena a 100% a pequenos e médios empresários e profissionais liberais, baseado no rendimento médio declarado nos últimos três meses. 

Durante um período de quarentena, os profissionais liberais ficam sem qualquer apoio. A necessidade de ir para casa para evitar o contágio faz-se a expensas próprias. Quando milhares de cidadãos têm de ficar em casa, os profissionais liberais ficam sem trabalho e sem qualquer rendimento. O governo não apresentou medidas especificas para o período da quarentena. O MAPA volta a propor, para o período dos 14 dias, o pagamento da quarentena a 100% a pequenos e médios empresários e profissionais liberais, baseado no rendimento médio declarado nos últimos três meses. 

3- Suspensão da TSU para os profissionais liberais durante 2 meses.

O Governo decretou odiferimento do pagamento de contribuições e a isenção temporária do pagamento de contribuições para a Segurança Social (art.10º). As contribuições serão repostas segundo um plano prestacional, após o fim da atribuição deste apoio.

O MAPA reforça: É preciso que os profissionais liberais consigam obter um fundo de maneio que lhes permita sobreviver após o fim da emergência. Não é possível prever como se comportará a economia: se a retoma será imediata, se será faseada ou se poderá, até, não existir uma retoma em vários setores. As contribuições deverão ser retomadas apenas quando os diferentes setores da economia voltarem a crescer, Para os setores da economia que não voltarem ao ativo, a TSU destes meses deve ser perdoada.

4-Atribuição de subsídio de desemprego, mesmo sem fecho da atividade, até 55% do valor médio registado nos últimos três meses, a todos os profissionais liberais e pequenos e médios empresários que registem quebras acima dos 2,5 % no rendimento da atividade económica.

O governo decretou um apoio extraordinário para os profissionais liberais. O valor do apoio é corresponde à remuneração registada como base de incidência contributiva, com o limite máximo de 438,81 euros (o equivalente ao valor do IAS). Para receber este apoio, é necessário o trabalhador estar em situação comprovada de paragem total da sua atividade, ou da atividade do setor, como consequência do surto do COVID–19.

O MAPA reforça que esta medida é claramente insuficiente. O apoio prestado aos trabalhadores independentes está abaixo do salário mínimo nacional, e todos aqueles que tiverem dívidas à segurança social ou às finanças ficarão de fora deste apoio, ao contrário do que acontece com os trabalhadores por conta de outrem.

5- Atribuição de um fundo de apoio às empresas, mesmo sem fecho da atividade, até 65% do valor médio registado nos últimos três meses, a todos os que registem quebras acima dos 5 % no rendimento da atividade económica (Medida já analisada no ponto 1).

Nós, cidadãos, apelamos ao governo para que continue a trabalhar na execução de medidas extra de apoio que não descriminem nem penalizem os cidadãos, independentemente de exercerem o seu trabalho por conta de outrem, a recibos verdes ou enquanto pequenos e médios empresários. Além disso, a realidade diária desta crise sanitária vai continuar a expor outras situações de vulnerabilidade que implicarão uma resposta sólida e urgente, de modo a que ninguém, independentemente da sua situação profissional, fique para trás. Para que enfrentemos as adversidades todos juntos e todos iguais.

Para assinar a nossa carta, siga o link: https://m-apa.eu/pela-dignidade-de-todos-os-cidadaos-em-tempos-de-excepcao/&sa=D&ust=1586263443953000&usg=AFQjCNGB4a09HD_4iO3eI1gU0pVQEqTXkA

Teletrabalho, remendo do presente ou prática de futuro?

Neste podcast debatemos se o teletrabalho é uma situação de remendo ou, se pelo contrário, será prática num futuro próprio. Quais as vantagens e desvantagens do teletrabalho? Quais os impactos na economia? E o teletrabalho é afinal para todos ou um privilégio dos intelectuais? Estas e outras questões debatidas e analisadas por Marisa Filipe, Mariana Topa, Rosa Barreto e Liliana Veríssimo.

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Quarentena peca por excesso ou por defeito?

O Estado de Emergência Nacional é um ataque à liberdade? Poderíamos atravessar esta crise sanitária com menos medidas restritivas ou deveriam ser mais apertadas? E o Governo, está a cumprir com o que dele esperamos?

Esta crise sanitária passará mas deixará a sua marca na história. O que mudará em Portugal, na Europa e no mundo?

Este podcast conta com a participação de Eduardo Proença, João Massena e Luciana Rio Branco.

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EP-1 :Que mundo depois da crise?

O Estado de emergência é o podcast do MAPA- Movimento de Ação Política,  um movimento de esquerda, que pretende pronunciar-se sobre diversas questões. Neste episódio falaremos sobre a crise social e económica, em Portugal e na Europa, que virá por consequência de um estado de emergência decretado por todo o mundo.  Participam Ricardo Alves, Marisa Filipe, Pedro Lopes e Rosa Barreto.

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Recibos verdes e profissionais liberais, as primeiras vitimas económicas do Coronavirus.

Marisa Galiza

À data em que escrevemos este artigo, o coronavírus encontra-se espalhado em 45 países, da Ásia à América do Sul, com 3200 mortes confirmadas. Em Portugal, encontram-se registados seis casos de infecção pelo coronavírus e será apenas uma questão de dias para o número duplicar pelo que devemos estar calmos, alertas e prevenidos.

Do pouco que ainda sabemos, a  transmissão deste vírus ocorre através de gotículas e das vias respiratórias. A prevenção passa por lavar as mãos com água e sabão frequentemente, tapar o nariz e a boca quando tossir, manter um metro de distância sobre quem está a espirrar e a tossir. Seguir estas recomendações à risca é essencial para travarmos a expansão desta epidemia.

Os agentes económicos encontram-se apreensivos. Ainda não se sabe a dimensão os impactes económicos que este vírus causará mas Portugal encontra-se particularmente vulnerável. O setor do turismo é a maior atividade económica exportadora do país. Em 2018, este setor foi responsável por 51,5% das exportações de serviços e por 18,6% das exportações totais, tendo as receitas turísticas registado um contributo de 8,2% no PIB português, segundo os últimos dados do INE. Foram criados 328,5 mil novos empregos, com um peso de 6,7% na economia nacional.

Contudo, a maioria destes empregos são sazonais e precários. Tuks tuks, uberistas, taxistas, motoristas de autocarros de passeio, agentes de viagens, guias turísticos, todos estes profissionais, geralmente profissionais liberais e a recibos verdes, serão os primeiros a sentir a falta de trabalho e a quebra no seu rendimento. A estes profissionais juntar-se-ão os trabalhadores a contratos que, com a diminuição do número de clientes, arriscarão o seu posto de trabalho: cozinheiros, camareiros, rececionistas, entre muitas outras profissões ligadas ao turismo. Todos os profissionais de turismo encontram-se muitíssimo preocupados com o impacto que esta epidemia tem nas suas vidas, quer ao nível da saúde quer ao nível do rendimento.

Mas, enquanto os trabalhadores por conta de outrem terão direito a baixa por doença e, nalguns casos, seguro de saúde, os trabalhadores independentes ficarão sem trabalho, sem subsídio de desemprego e sem qualquer apoio do estado por doença. Esta situação é ainda mais desigual porque o Governo acaba de anunciar que todos os trabalhadores do privado e público, caso tenham que se ausentar do posto de trabalho em razão de confinamento determinado pelas autoridades de saúde, receberão o salário a 100% e a 55% caso a doença se confirme. Mas 56% de portugueses que são empresários e profissionais liberais estão fora destas medidas e completamente desamparados. O Governo, ao ignorar estes profissionais, e não podemos ter medo das palavras, está ativamente a criar pobreza e discriminação entre os seus cidadãos. Este é o tempo da igualdade e de cumprir o Estado Social. O Estado Português deve seguir o exemplo Italiano, e criar fundos de emergência de apoio a empresas e profissionais liberais para que os impactes da epidemia sejam mitigados. É preciso garantir aos empresários e profissionais liberais que o Estado tem um plano de salvaguarda, que não os deixa à mercê das circunstâncias e não os atira para situações de carência e pobreza.

Apelamos que seja constituído um fundo de emergência de apoios a empresas e profissionais liberais, de acesso simplificado, de modo a cumprir a Constituição Portuguesa e os valores da República. Propomos que o valor atribuído às empresas e profissionais liberais se baseie na média dos recebimentos (e descontos) dos últimos três meses. E propomos também que se repense, após esta crise, se este é o modelo económico e social onde queremos viver, um modelo económico que sucumbe perante todas as crises é gerador de cada vez mais desigualdades.

A Esquerda É Totó

Eduardo Proença

O problema são os muçulmanos. Logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país.

A tese exposta acima foi apresentada originalmente pelo excêntrico candidato a presidente Donald Trump, em Dezembro de 2015. Como sabemos, Trump acabou por conquistar a presidência dos Estados Unidos da América nas eleições do ano seguinte, ao alcançar quase 63 milhões de votos, ganhar trinta estados, e garantir uma maioria de delegados no colégio eleitoral que designa o chefe de estado da maior economia do mundo.

A teoria de que os males da sociedade derivam de uma minoria religiosa, e que portanto se resolvem banindo do país os membros desta minoria, é ridícula, imbecil, implicitamente xenófoba e não tem qualquer conexão com a realidade. (Podemos desenvolver um debate sério sobre os vastos problemas que as religiões trazem ao mundo – incluindo o cristianismo, o judaísmo, o hinduísmo, o budismo, etc… e sim, o islão – mas não foram “os muçulmanos” que fizeram com que os salários dos trabalhadores americanos estagnassem desde os anos 70, nem foram “os muçulmanos” que deixaram 27 milhões de americanos sem seguro de saúde. A causa das alterações climáticas que põem em perigo a nossa sobrevivência enquanto espécie também não foi o islão. Portanto, a teoria de Trump é simplesmente estúpida.)

Como reacção, podemos passar horas, dias, meses, anos, a «condenar o racismo», podemos escrever mil artigos a «defender a tolerância», podemos ficar escandalizados e zangados, fazer grandes proclamações de valores ou denunciar quem quisermos, incluindo Trump e os seus apoiantes. Mas Trump ganhou, levado a braços por milhões de eleitores. Denunciar a sua xenofobia não vai mudar este facto.

Queremos derrotar a extrema-direita? Para o fazer, seja em que lugar do mundo fôr; nos Estados Unidos ou no Brasil ou na Europa, há que compreender o que a tornou viável nos últimos anos, e porque se afirmou como alternativa ao status quo.

Por outras palavras, precisamos de analisar o discurso da extrema-direita, e perceber de que maneira é que a sua narrativa sobre o mundo actual faz sentido para tantas pessoas em todo o planeta. Estudar a doença para encontrar a cura.

O timing não é a questão em cima da mesa. A ascensão de ideologias anti-sistema, nas quais se incluem os movimentos securitários e xenófobos, coincide invariavelmente com o rescaldo de crises económicas graves e níveis de desigualdade incomportáveis. É assim no pós-2008 como foi no pós-1929. A dúvida é, antes, porque é que a esquerda, por definição o campo político da mudança, não se está a conseguir afirmar como principal alternativa ao status quo. Fê-lo várias vezes no passado, mas, nos dias que correm, parece está a perder a corrida para a extrema-direita, um pouco por todo o lado.

E agora? Hipótese A: convertemo-nos em cínicos ou pessimistas, e entramos em desespero. No fim de contas, os fascistas não têm o monopólio dos bodes expiatórios… podemos culpar a “natureza humana”, a tecnologia das redes sociais, ou outro qualquer factor imutável, ignorando as circunstâncias históricas e a nossa própria responsabilidade. Hipótese B: fazemos um processo de auto-crítica, e tiramos a limpo porque é que a nossa narrativa sobre os problemas do mundo está a colar menos com as pessoas do que aquela de Trump e companhia.

Proponho que ensaiemos a hipótese B. Não porque eu tenha uma resposta definitiva e imbatível (ninguém tem), mas porque me parece que há algo que nos anda a escapar. Um problema de lógica. Para ilustrar a minha perspectiva, gostaria de recuperar a tese de Donald Trump que serviu de ponto de partida para este texto: o problema são os muçulmanos; logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país. Esta teoria específica é só um exemplo. Poderíamos substituí-la por outra semelhante, como: o problema são os mexicanos; logo, devíamos construir um muro para impedir que entrem no nosso país. Ou, mais genericamente: o problema é “o outro”; logo, devíamos proibi-lo de integrar a nossa sociedade. O processo lógico é idêntico. Mas tomemos o exemplo dos muçulmanos.

A teoria tem duas partes. Na primeira, identifica-se a alegada causa do problema: as pessoas de uma determinada religião. Na segunda, aponta-se a solução para o problema: manter essas pessoas fora da nossa sociedade. Como já vimos, a primeira parte da teoria é completamente descolada da realidade. Qual é a relação que o islão tem com a desregulação da banca? Ou com a automação? Ou com a transformação das nossas democracias em oligarquias dos grandes interesses económicos? A proposição é lunática.

Mas, e a segunda parte da teoria, aquela em que se identifica uma solução? A segunda parte deriva da primeira, e é portanto igualmente absurda. No entanto, ela tem um mérito: é coerente com a primeira parte. Ou seja, caso o problema dos Estados Unidos fosse, realmente, os muçulmanos, então, faria sentido bani-los de entrar no país. Em suma, a tese de Trump não cola com a realidade, mas é internamente coerente.

Agora, vamos contrapor-lhe outra teoria. A esquerda tem uma ideia diferente sobre a crise social que o mundo atravessa: em vez de culpar minorias, aponta como causa o sistema económico que temos. Quer chamemos a este sistema “capitalismo”, quer lhe chamemos “neo-liberalismo” (para o diferenciar de outros modelos capitalistas, presumivelmente benignos…?), ele tem demonstrado uma série de características tóxicas, que bem conhecemos: enorme desigualdade de rendimentos e de poder; instabilidade económica e financeira; ataque aos serviços públicos; destruição do planeta em que vivemos; corrupção do sistema político…

Tudo muito bonito. Ou antes, totalmente rigoroso. Mas, partindo daí, qual é a solução que este campo político apresenta?

Ora, vamos extrapolar. A solução de Trump para o (falso) problema dos muçulmanos é banir os muçulmanos. Se o problema, segundo a esquerda, é a injustiça económica, poderia supor-se que os seus líderes propusessem… banir a injustiça económica?

Errado. A solução normalmente apresentada pelos protagonistas de esquerda é um pouco mais “sofisticada”. Aparentemente, atacar o problema directamente revelaria falta de nuance. Então, em vez de querer acabar com a desigualdade económica profundamente injusta, a esquerda quer… amenizá-la. Reduzi-la. E não através de medidas directas e imediatas, mas sim de processos indiretos, parciais, demorados.

Os políticos à esquerda nunca se propõem derrotar a desigualdade, mas sim “combatê-la”, que é como quem diz: diminuí-la, sem nunca clamar vitória total. Para isso, querem expandir o estado social, tornar os impostos mais progressivos, criar programas específicos de combate à pobreza, melhorar a legislação laboral, aumentar o acesso à educação. A intenção é meritória, mas falta uma coisa a toda a sua estratégia: pura e simplesmente, definir o que é “ganhar”.

Não sou grande fã de metáforas, mas, por uma vez, peço sejam indulgentes comigo. Imaginem que a vossa casa está a arder. Alguém chama os bombeiros. Quando estes finalmente aparecem, o chefe chega-se à frente e diz-vos: “Caros senhores, este incêndio é terrível. Vamos reduzi-lo.”

Depois prossegue: “Estivemos a ver, e achamos que diminuindo a entrada de oxigénio na cozinha podemos diminuir as labaredas para metade nessa divisão da casa. Através de diversas estratégias, também podemos amenizar o fogo da sala de estar, e, no seu devido tempo, contê-lo para níveis aceitáveis na marquise”.

Perante o discurso do bombeiro, a reação normal e saudável de um ser humano seria pensar: «Este homem está louco?? Ele não vai apagar o fogo? Onde está a água ou o extintor?? Para que servem afinal os bombeiros!?». Eis, senhoras e senhores, a reação lógica ao projecto político da esquerda actual.

A comparação pode parecer abusiva e absurda, mas olhemos com atenção.

Para o problema da pobreza, a esquerda não propõe erradicá-la com um rendimento básico incondicional, mas sim diminuí-la através do investimento em serviços públicos, de subsídios, de aumentos das pensões, do aumento do salário mínimo…

Para o problema da exploração, a esquerda não propõe proibi-la, abolindo o contrato de trabalho (definido, noutros tempos, como “escravidão assalariada”) e democratizando o local de trabalho, mas sim ameniza-la através do reforço da contratação colectiva, do aumento dos direitos laborais, da representação dos trabalhadores na direção das empresas, do aumento dos ordenados…

Para o problema da concentração desproporcional de riqueza e poder político nas mãos de uma elite minoritária, a esquerda não propõe impedi-la criando um rendimento máximo individual, mas sim temperá-la, com impostos progressivos, medidas redistributivas, financiamento público das eleições, maior transparência na política… A esquerda aceita que haja oligarcas milionários… simplesmente quer que eles paguem «a sua quota parte».

Para o problema da instabilidade económica e financeira, a esquerda nem sequer propõe uma mudança sistémica que previna o aparecimento de crises ou o florescimento de dívidas insustentáveis. Em vez disso, em Portugal, por exemplo, todo o discurso político alternativo foi, durante vários anos, o de rebobinar a cassete da História: “recuperar” direitos, “reverter” a austeridade, anular a Troika, voltar a níveis sociais anteriores à crise. Mas… o pré-Troika, e o pré-crise, não antecederam por definição, respectivamente, a Troika e a crise? Não havia algo de fundamentalmente errado no período anterior a 2008 que, precisamente, conduziu ao crash da bolsa? Se o nosso grande objectivo político era clicar no botão “undo” e voltar ao início dos anos 2000, isso não abriu portas a que pudéssemos ser descritos como parte do sistema? Não deveria haver algo de novo, de diferente, na nossa proposta política? Uma solução para o problema de fundo? Onde está o extintor?

Apontar um problema, e depois querer tratá-lo com meias medidas, indirecta e superficialmente, é ilógico. O contraponto da esquerda à tese «o problema são os muçulmanos; logo, devíamos bani-los de entrar no nosso país» tem sido, recordemos: o problema é a injustiça económica; logo, devíamos moderá-la.

A narrativa de Trump, como vimos, era internamente coerente. Problema: muçulmanos – solução: banir os muçulmanos. Simplesmente, não tinha qualquer conexão com a realidade.

A narrativa alternativa, por sua vez, está assente na realidade, mas não tem coerência interna nenhuma. Se a casa está a arder, é absurdo não querer apagar o fogo. E é, de facto, absurdo, que não ataquemos a injustiça económica de uma forma radical, directa e assertiva.


A extrema-direita tem uma sabedoria enorme neste tipo de coisas. Facilmente compreende as consequências políticas de determinados pontos de partida. Acabei recentemente de ler o livro This Changes Everything, da jornalista canadiana progressista Naomi Klein. A autora argumenta, brilhantemente, que os conservadores americanos, enquanto negacionistas das alterações climáticas, foram os únicos que perceberam uma coisa que o resto de nós se recusa a aceitar: o capitalismo é incompatível com o clima. E que, nisso, têm toda a razão. Por isso mesmo, têm de voltar as costas à ciência e rejeitar os factos – mas os verdadeiros negacionistas somos nós, que aceitamos os factos e, no entanto, recusamos as suas consequências.

É assim na nossa relação disfuncional com o planeta, como é relativamente a este sistema económico perverso. Quando assumimos a realidade de um problema, temos de assumir, como implicação, a necessidade de lhe pôr fim. Não fazê-lo é ser, muito claramente, inconsciente, inconsequente e incoerente. E a incoerência não convence as pessoas.

Para ganhar, a esquerda tem de deixar de ser totó. E, por uma vez, gostava finalmente de ganhar.