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Das greves e do papel do Estado

A montanha pariu um rato, é o que se pode concluir da greve dos motoristas de matérias perigosas.

Sobre as análises de recibos de vencimento que por aí circulam, tenho sempre as minhas dúvidas porque cada lado apresenta e dramatiza o seu lado.

No Jornal Economico diz que “assumindo o exemplo típico de um trabalhador que, sendo casado, com dois filhos menores e cuja mulher não aufira rendimentos, num mês que realize 22 dias de trabalho, doze dos quais com deslocações que implicam dormida deslocada e dez dias com pequeno-almoço e almoço deslocados, auferirá, no mínimo 1.416,74 euros”

Eu tenho desde já um problema sério quando a análise aponta para um homem com dois filhos e mulher desempregada. Falamos aqui, exclusivamente na relação entre entidade empregadora e empregado e em nenhum momento questões relacionadas com a família fizeram parte das reivindicações. Essa é outra luta excepto quando dá jeito para a dramatização mediática.

Já a TVI teve acesso a um recibo, em que omite todas as identificações,  em que o salário líquido ascende a 1890€, onde me questiono nas quantidades serem sempre de uma unidade e o sujeito auferir pelo trabalho complementar, metade do salário base.

Facto é que o salário base é de 630 euros e só mesmo neste canto do mundo é que um profissional especializado é remunerado, de base, como se não soubesse fazer nada ou tivesse um trabalho que qualquer um possa fazer sem nenhum tipo de formação ou experiência.

Depois ficamos muito admirados porque é que, mesmo fora da crise, os portugueses continuam a embarcar para outros destinos. É simples: porque lá fora, mesmo indo para um trabalho considerado não especializado, ganha-se muito mais.

Mas reivindicações à parte, sobre a montanha e o rato. A primeira questão é que não entendo em que medida é que o Estado tem de tomar parte nas negociações numa matéria que não lhes compete. Mas já que o fez, porque é que Pedro Nuno Santos não cumpriu com o que ameaçou na greve anterior e chamou as petrolíferas à sua quota de responsabilidade e responsabilização? Quanto do que é pago pelas petrolíferas serve para os custos operacionais, entre eles, salários? Mais, o Estado esvaziou, com a requisição civil de tal dimensão que quase ninguém deu conta que existia uma greve, a força da luta dos trabalhadores que é em última análise, perturbar a gestão e lucro da entidade patronal.

Vieira da Silva enche-se de rigor legal para forçar os trabalhadores a trabalhar durante a greve, três semanas depois de Augusto Santos Silva dizer “Seria um absurdo uma interpretação literal da lei”.

Claro que Vieira da Silva não tem interesse em greves a dois meses das eleições assim como Santos Silva não tem interesse que a lei se aplique e seja fontes de escândalos. Um Governo, dois ministros, duas medidas. Ética e moralidade à lá carte. 

Faz lembrar as leis que Berlusconi foi criando para que as suas ilegalidades passassem a ser legais. 

Em última análise, o Estado, poderia fazer requisição civil das viaturas especializadas no transporte de combustíveis, sendo que a receita do transporte revertia a favor do Estado não prejudicando nem os cidadãos nem grevistas.

E aqui salto já para a questão de fundo que é o papel do Estado.

Agora, tal como sempre defendi, energia, águas, saneamento e telecomunicações, funções de estratégia e vitais à normalidade do país, não podem pertencer a privados.

Estas greves não nos mostram apenas as debilidades salariais dos profissionais do país, mostram-nos sobretudo quão fragilizado fica o país se determinados sectores decidem parar de trabalhar.

Suponhamos que os funcionários da EDP ou da Altice deixam de trabalhar. Não há requisições civis que valham. O país pára porque não há quem substitua o conhecimento dos que trabalham nestas matérias. Devia mesmo parar porque as questões salariais dos motoristas são precisamente as mesmas para os que trabalham nas redes de águas, electricidade e telecomunicações. Aqueles que fazem a “coisa” acontecer, a malta da “ferrugem”, são trabalhadores especializados a receber migalhas para sustentar a gula dos accionistas.

Sou completamente contra as concessões a privados do que é nevrálgico para o Estado e a rede Siresp foi um bom exemplo.

Devolver estas funções e por arrasto os trabalhadores à esfera do Estado impediria greves? Claro que não, mas teríamos a certeza que não seriam meia dúzia de tubarões, nesta altura nas Caraíbas ou noutro paraíso balnear, a ficar com o produto do trabalho e a comprometer as condições de vida dos trabalhadores e dos portugueses em geral.

A sorte dos que governam é que em Portugal é apenas fumaça, os cães ladram, mas a caravana lá segue o seu caminho.

admin

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