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Uma espera assistida

Hoje escrevo sobre um assunto que poderá deixar os leitores desconfortáveis. Não é intencional, mas necessário. 

Os meus bisavós morreram, os meus avós morreram, duas das minhas tias morreram, alguns amigos dos meus pais já morreram e o meu primeiro namorado morreu. 

Mas, apesar de tudo, cá dentro ainda tenho uma pequena centelha de imortalidade. Aquela que me diz: 

– isto não te vai acontecer. Só acontece aos outros. 

– se nao pensares muito nisso, se calhar nem acontece

– Mariana, estás a sofrer por antecipação.

A questão é, eu gosto de estar preparada para tudo. 

Se vou de férias faço a mala, se vou para a praia levo protector solar e se vou andar de avião levo o bilhete e o passaporte. 

Escrevo-vos, de uma sala de espera de um hospital público, onde aguardo uma consulta. Não tenho medo, porque parece ser apenas de rotina e espero o melhor dos resultados dos exames que fiz. Gosto do meu médico e acredito no Serviço Nacional de Saúde. 

Mas, e quando correr mal? Como posso eu preparar-me para a última viagem, a entrada no céu ou no inferno, ou, pior ainda, para a longa estadia no limbo, onde provavelmente pertenço por não ter recebido ainda as honras do baptismo.

Nesta altura os leitores devem estar a pensar:

– coitadinha da rapariga, ficou muito traumatizada com a morte dos avós

– mas a morte faz parte da vida, ela tem de compreender. 

E esta rapariga compreende isso tudo e muito bem. Mas esta mesma já viu muitos a partirem com dor. Quase sempre durante a noite, sozinhos numa cama de hospital. No último sítio onde queriam estar. Longe da família e já transfigurados pela horrivel doença que os levou.

A memória que deixam aos seus entes queridos é daquele corpo cadavérico, de olhar vazio e sem esperança. Pessoas muito bem acompanhadas medicamente, com boas doses de morfina e visitas de familiares. 

Os meus familiares não estavam sozinhos em vida, mas morreram, quase todos, sozinhos. Provavelmente durante o sono e depois de uma dose mais forte de morfina, que o organismo já muito débil não conseguiu suportar.

Mas existe uma morfina para o espírito? 

Quem vai aliviar a dor do seu próprio reflexo no espelho de um corpo a definhar? 

Quem vai apagar da nossa memória o sofrimento de ver aqueles que nos criaram, nos protegeram e nos deram tanto? 

Quem vai ter a coragem, de, nesta legislatura, deixar de lado as suas crenças e dogmas e permitir aos outros terem as suas opções sobre a sua própria vida? 

Três partidos incluíram a despenalização da morte medicamente assistida no seu programa às legislativas de 2019. 

Nenhum dos grandes partidos assumiu uma posição clara sobre o assunto. 

A Sociedade civil tem-se organizado com manifestos, vídeos, testemunhos e relatos de soluções encontradas na Europa. 

Políticos, médicos, músicos, uniram-se por uma causa comum. 

Causa esta que não invalida a sua aparente adversária política, a dos cuidados paliativos. Que, como o próprio nome indica, são os tratamentos aplicados quando já não há esperança. Quando não há cura, nem remédio.  Que devem ser reforçados, claro que sim. 

Mas não são alternativa àquele que considero o último acto de solidariedade. 

A Morte Medicamente Assistida. Segundo regras e apenas quando pedido pelo doente, após esgotados todos os tratamentos. 

Não sei se o pediria para mim, não sei se os meus familiares o teriam pedido, mas gostaria de ver um país política e tecnologicamente evoluído como Portugal, a dar este salto democrático e humano, de permitir a cada um de nós, dispor da sua vida e da sua morte.